A bela sociedade, a sociedade alegre, composta de rapazes e de raparigas,
estava reunida em roda da larga mesa da sala de jantar, convertida em mesa de
jogo. A velha mãe das raparigas, a gorda Sra. Manuela Matias, bem sabia que Cacilda, a mais velha, (vinte anos, dizia ela; vinte e cinco, diziam as más
línguas) estava ao lado do louro Eduardo. E para que um discurso tão importante e tão grave fosse assentado sobre fundamentos sólidos e
irrefragáveis, na barriga do padre João, debaixo da batina, alguma coisa grossa estava bolindo. Começou ele:
- Comadre Milena, você vai comprovar, nesta oportunidade, que tudo aquilo que a gente acredita que vai acontecer em nossa vida, sempre acaba se sucedendo. E o que é melhor: há vezes em que a felicidade que nos chega supera aquela felicidade que a gente imaginou...
- ...Não é nada do que pensais, filhas! Não é carne! É peixe! É peixe! Não é carne! - defendeu-se o padre João.
Caminhava com um ar exuberante e, por diversas vezes, sorriu de íntimo prazer.
A velha patroa, ao ouvir o tremendo ruído do batente da porta, saltou rapidamente da cama, calçando apenas uma meia, e foi a correr abrir aquela, segurando pudibundamente a camisa contra os seios, esqueceu o seu pudor e pôs-se a desabafar:
-Vovô, por acaso a minhoca é parente da cobra?
-Chi, comadre! - Emendou a patroa - tenho certeza que ele vai falar sobre o mico leão dourado, que até virou ilustração de cédulas de dinheiro, e com essa história de estar em extinção só dá ele nos assuntos desses tais ecologistas.
Milena sorriu. Olhou para as paredes da casa e sentiu saudades de seu próprio ninho. Agora, consciente de seu valor próprio, com a auto-estima recuperada, pediu encarecidamente aos donos da casa:
-Aqui está muito bom, comadre Joana e compadre João. Mas preciso ir. Estou com saudades de casa e o trabalho me espera.
--- Tálvez Lo-ur lo Frotto, colagem sobre "Sermão do Bom Ladrão" do Pe. Vieira, "A Minhoca e o João de Barro" do Geraldo Peres Generoso, "O Capote" de Nicolai Gogol e "Contos para Velhos" de Olavo Bilac.
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