sábado, 25 de outubro de 2008

Monolito 1

>

— Você parece gato, — costumava ela dizer quando ele esfregava o rosto nos seus braços. — Porque não ronrona também como o gato?

— Que há de transformar o nosso corpo vil, para identificá-lo com o corpo glorioso... - completava John Beavis. - Precisamos viver agora sempre juntos, sempre unidos.

— Bem juntos. Porque nós ambos... — hesitou; — nós ambos a amávamos.

-- Gosto de sentar-me ali por que, atrás da pequena janela fechada e sem que
ninguém me descubra, posso olhar as janelas de nossa casa!

Intervi neste momento:

-- A mim, a mim. Estira-te, ponte, coloca-te em posição, viga órfã de
balaústres, sustém aquele que te foi confiado. Nivela imperceptivelmente a
incerteza de seu passo, mas se cambaleia, dá-te a conhecer e, como um deus
da montanha, atira-o à terra firme.

Veio, golpeou-me com a ponta férrea de seu bastão, depois ergueu com ela as pontas de minha casaca e arrumou-as sôbre mim. Com a ponta andou entre meu cabelo emaranhado e a deixou longo tempo ali dentro, olhando provavelmente com olhos selvagens ao seu redor. Mas então – quando eu sonhava atrás dele sobre montanhas e vales – saltou, caindo com ambos os pés na metade de meu corpo. Estremeci-me em meio da dor selvagem, ignorante de tudo o mais.

-- O trono meu deixei, por que te vejas, -- iniciou John Beavis -- fiada em teus discursos eloqüentes. Honra tua e de quem te ouvindo esteja.

Três orifícios, um patear de cabras, rumores que vinham do céu e outros tantos ruídos compunham o silêncio.

A Terra, ao princípio, estava muito quente e sem atmosfera. Com o tempo, arrefeceu e adquiriu uma atmosfera a partir de gases emitidos pelas rochas. A atmosfera primeva não nos teria permitido sobreviver. Já hoje, as fêmeas de certas espécies de borboletas revestem regularmente duas ou mesmo três formas absolutamente distintas que não estão ligadas por qualquer variedade intermédia.

— Trabalhar, — dizia John Beavis. — É a única coisa a fazer numa ocasião como esta.

---- Tálvez Lo-ur lo-Frotto, Colagens sobre Kafka (A Ponte), Dante (A Divina Comédia), Camus (Nupcias, o verao), Darwing (A Origem das Espécies), Asimov (Viagem Fantástica 2), Huxley (sem olhos em Gaza)

Nenhum comentário: